• Afonso Martins

Como devemos nos comportar diante das três maiores emergências globais?

Há três grandes emergências que estamos convivendo nos últimos anos e para nenhuma delas temos tempo de sobra para pensarmos. Os problemas já estão conosco e carece de ação. Temos uma grave crise na saúde, principalmente por conta do Covid-19, mas não apenas por conta dele. Temos uma grave crise de perda de biodiversidade que, embora não levada muito a sério pelos governantes, é a causa de muitos outros problemas subsequentes, podendo ser, inclusive, a causa da pandemia que nos atinge. Temos também a grave crise climática, que, embora não compreendida ou aceita por muitos, é real e pode ser devastador para a humanidade num futuro não tão distante.


As três crises citadas tem muitas diferenças entre si, mas também possuem ligações profundas e que provocam impactos sociais, ambientais e econômicos fortes que afetam todo o globo terrestre. Entre os pontos comuns mais relevantes cita-se um modelo de desenvolvimento econômico que é orientado pelo maior lucro no menor espaço de tempo, não importando as consequências futuras. Outro ponto comum importante é que, nas três crises, em geral, governos vão contra as recomendações da ciência.

Essas três crises trazem à tona questões fundamentais sobre nossa sociedade. Uma delas é como e onde estamos colocando nossos recursos. Vamos pensar, como exemplo, no que tem feito os Estados Unidos da América. Anualmente o país gasta trilhões de dólares em armas nucleares e máquinas de guerra, mas um vírus de 120 nm causa a morte de alguns milhões de pessoas em menos de um ano. Os recursos intelectuais, científicos e financeiros estão sendo investidos nos lugares errados. As vulnerabilidades estão sendo expostas pelo Covid-19 e, apesar do foco está sendo no vírus, as vulnerabilidades também estão presentes nas muitos outros temas da humanidade.

É comum escutar pessoas negando as crises que estamos passando, principalmente as ambientais. Não é difícil encontrar pessoas que defendem que vale qualquer coisa para que o país possa crescer. Isso algo comum porque o modelo de desenvolvimento econômico é orientado pelo maior lucro no menor espaço de tempo, não importando as consequências futuras. Falta a consciência que a crise vai muito além do que apenas o título que ela recebe. Por exemplo, as mudanças climáticas vão além do aumento de temperatura. Trata-se de alterações na precipitação das chuvas, circulação do ar atmosférico, criação de eventos climáticos extremos, aumento do nível do mar e muitos outros problemas também são questões chaves que impactam fortemente nosso sistema ambiental e consequentemente socioeconômico. Consegue imaginar como ficará nossa agricultura com secas mais intensas, ventos mais fortes, inundações? Consegue imaginar as consequências do nível do mar com 50 centímetros acima do normal?

Ah! Mas você já pensou nos impactos que essa mudança pode trazer para os países mais pobres?


É inegável que haverá impactos não desejáveis, principalmente para os países em desenvolvimento, mas é preciso agir de alguma forma, ou logo não teremos mais recursos para sobreviver. Os impactos serão grandes, mas também pode representar novas oportunidades de negócios e de aumento de eficiência energética, além da possibilidade de construir economias verdadeiramente sustentáveis. Não há uma outra saída, adaptarmos a isso não é apenas uma opção, é uma necessidade e todos os setores da sociedade precisam dar sua contribuição.

Precisamos mudar radicalmente nosso sistema socioeconômico para um sistema minimamente sustentável, mais justo, com menos desigualdades. É preciso que entendamos que o ser humano é parte do sistema natural. Não devemos agir como agentes externos para alterar os sistemas ecológicos para nosso benefício a curto prazo. Precisamos repensar os ecossistemas e o desenvolvimento econômico. Sempre com base na ciência.

Para lidar com as três crises a qual estamos falando, precisamos de sistemas de governança que atenda às necessidades de ações integradas em todos os níveis. Voltando para a questão do Covid-19, por exemplo, observamos que cada país individualmente desenvolveu a sua própria estratégia, às vezes opostas no enfrentamento de uma pandemia que é global. No Brasil essa estratégia chegou a ser diferente em estados e municípios. Trazendo o exemplo do Covid-19 para as questões ambientais, é evidente que estratégias dessa forma nas questões climáticas não vão funcionar. É preciso uma estratégia global, ações fragmentadas certamente serão ineficientes.


A sustentabilidade é possível e necessária. Teremos muito trabalho em construí-la, mas não temos outra alternativa. Ou redirecionamos os nossos recursos ou seremos tragados pelos nossos erros. É preciso enfrentarmos as três crises e não podemos nos dar ao luxo de deixar alguma delas para depois.


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